quinta-feira, 11 de junho de 2009

Homenagem a Bocage



Como setubalense puro (e duro) que sou, quero deixar neste meu blog uma homenagem a Manuel Maria de Barbosa du Bocage, um dos maiores poetas portugueses que sempre foi caracterizado por nunca ter tido "papas" na língua para ninguém.

Nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765 e morreu em a Lisboa, 21 de Dezembro de 1805. Expoente máximo do arcadismo lusitano e ícone deste movimento literário, Bocage viveu num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico e teve uma forte presença na literatura portuguesa do século XIX.
Era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l'Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era francês.
Fugiu de casa aos 14 anos para se alistar no exército e foi transferido para a Armada dois anos depois. Como integrante da Academia da Armada Real, em Lisboa, dedicou seu tempo a casos amorosos, poesia e boémia.
Em 1786 foi enviado, tal qual seu herói Camões, para a Índia (Goa e Damão) e, também como Camões, se desiludiu com o Oriente. Depois, por vontade própria e à revelia dos seus superiores, foi para Macau, voltando a Portugal em 1790. Ingressou então na Nova Arcádia — academia literária com vagas vocações igualitárias e libertárias —, usando o pseudónimo de "Elmano Sadino". De temperamento forte e violento, teve vários desentendimentos com personagens da sua época e as suas sátiras provocaram a sua expulsão do grupo, à qual se seguiu uma longa guerra de versos que envolveu a maior parte dos poetas lisboetas.
Em 1797, acusado de heresia, dissolução dos costumes e idéias republicanas, foi implacavelmente perseguido, julgado e condenado, sendo sucessivamente encarcerado em várias prisões portuguesas. Ali realizou traduções de Virgílio, Ovídio, Tasso, Rousseau, Racine e Voltaire, que o ajudaram a sobreviver nos anos seguintes, como homem livre. Ao recuperar a liberdade, graças à influência de amigos, e com a promessa de se emendar, o poeta, envelhecido, parece ter abandonado a boémia.
Bocage usou vários tipos de versos, mas destacou-se principalmente pela qualidade dos seus sonetos. Não obstante a estrutura neoclássica de sua obra poética e o seu intenso tom pessoal, a frequente violência na expressão e a auto-dramatizada obsessão face ao destino e à morte, anteciparam o Romantismo.
Suas poesias e Rimas, foram publicadas em três volumes (1791, 1799 e 1804). O último deles foi dedicado à Marquesa de Alorna, que o passou a proteger.
A sua poesia censurada surgiu da necessidade de agradar ao público que pagava. Com admirável precisão, o poeta punha o dedo acusador nas chagas sociais de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero corrupto, comprometidos ambos com uma política interna e externa anacrónica para a época. Sempre teve presente a exaltação do amor físico que, inspirado no modelo natural, varreu o platonismo fictício de uma sociedade que via pecado e imoralidade em tudo o que não fosse convenientemente escondido.

Magro, de olhos azuis

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de fachada, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Ah grande Bocage, se hoje fosses vivo serias por certo um dos ases da blogosfera (da má língua, claro).


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