Quando hoje saí apressadamente da minha consulta de cardiologia, algo desanimado e inquieto, quase choquei com uma pessoa deficiente que se encontrava numa cadeira de rodas eléctrica no hall de entrada do hospital. Ao pedir desculpa pelo susto que lhe provocara, reparei que se tratava de uma mulher ainda jovem que tinha um rosto verdadeiramente angelical.
Ela sorriu-me e esboçou com a boca um meio imperceptível "não tem importância". Ao mesmo tempo algumas pessoas me olhavam não só pelo sucedido mas também pela cor do meu bronzeado (invulgar no Luxemburgo) mais realçado ainda pela t-shirt branca que tinha vestida.
Ao afastar-me da mulher para ir pagar à máquina o bilhete do estacionamento, notei que ela me fitava fixamente com um sorriso de felicidade. Dirigi-me depois à loja do hall para comprar uma revista. Ela continuava a seguir os meus passos e eu, num gesto de ternura, fiz-lhe um carinho na cara que ela retribuiu com outro, mecânico, dada a sua deficiência, hirta naquela cadeira que lhe serve de locomoção e amparo na infeliz doença.
Dentro da loja estive tentado a comprar uma rosa linda e oferecer-lhe para que ela sentisse de uma forma real que os deficientes também merecem ter momentos de felicidade para aliviar, ainda que temporariamente, a "cruz" que carregam. Não o fiz por cobardia e por ter medo de ser mal interpretado. Quando sai, fiz-lhe adeus e ela retribui-me como pôde o seu adeus com cara meio triste.
Já no carro senti-me tremendamente cobarde por não ter tido coragem de ter proporcionado um dia diferente àquela mulher. A falta de coragem para fazer um gesto simples como o de oferecer uma flor foi tão pesado que ainda agora me incomoda. Pelo menos aprendi a lição de que quando se trata de fazer bem aos outros não se deve hesitar, muito menos em tais circunstâncias.
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